PROPOSTA

A grande questão é esta: o que é a pregação? Quando é que acontece? O que é que implica? O que é que exige do pregador?

Diz-se de S. Domingos que falava com Deus ou de Deus. É uma resposta numa altura em que a palavra estava desacreditada e se pedia que o exemplo, de vida e de obras, pudesse apoiá-la. Destaquemos alguns modelos para encontrar a originalidade da proposta de S. Domingos:

 

3.1. Modelo de Monge Apostólico

S. Gregório Magno apresentou um modelo de monge apostólico, muito desenvolvido por S. Bernardo, que parece fazer da pregação um tempo roubado à contemplação: "Os santos anunciadores da Palavra de Deus, voltam, regressam continuamente a retemperar-se no seio da contemplação para aí refazer a chama do seu ardor, a fim de, tocando a claridade celeste, brilhem com essa luz. Vão e vêm como relâmpagos, porque ao sair do segredo da contemplação e ao entregar-se à vida activa, arrefecem depressa nas coisas exteriores, por melhores que elas sejam, se não regressarem continuamente, com diligência, ao fogo da contemplação"[9].

 

3.2. Modelo Espectante da Iluminação

 Vou resumir o interessante modelo de Diádoco, Bispo de Fotice do séc. V: É uma beleza esperar continuamente, por meio da fé activa na caridade, a iluminação que leva a falar; porque nada existe de tão indigente, pobre, vazio, como um pensamento que filosofa fora de Deus sobre as coisas de Deus[10].

 

3.3. Modelo da Ordem dos Pregadores: Gratia Praedicationis

O grande historiador de S. Domingos, M.- Umbert Vicaire, tem um texto fundamental para nos darmos conta do que é a notícia de um tesouro escondido:

"Notaremos apenas um pormenor, a propósito da escolha dos candidatos à pregação. Os textos primitivos ligam grande importância não só à ciência do candidato, aos seus costumes ou à sua caridade, mas também à gratia praedicationis. Os numerosos textos que, naquela época, utilizam a expressão na Ordem e fora da Ordem, particularmente os textos dos Valdenses, provam que ela não significa quaisquer dons oratórios, mas um verdadeiro carisma, uma espécie de vocação sobrenatural, a convicção de se sentir impelido pelo Espírito a falar. A gratia praedicationis faz da pregação dominicana um verdadeiro ministério do Espírito Santo, o anúncio carismático da Palavra de Deus"[11].

Não é de forma nenhuma um pormenor, é a realidade central. Na Bula Gratiarum Omnium Largitori, de Honório III (21. 01. 1217), a palavra praedicantes foi raspada e substituída por outra mais precisa e que indica a vocação e a função dos Dominicanos: praedicatores. S. Domingos será celebrado como Praedicator gratiae. As Constituições primitivas, nº 20 (retocadas em 1228 num Capítulo Geral), quando se ocupam do exame a que os irmãos devem ser submetidos para pregar – e devem ser examinados por pessoas idóneas e que tenham vivido com eles – indicam a matéria sobre a qual devem ser examinados: acerca da graça para pregar, isto é, da aptidão para pregar. A aptidão para pregar é, não só um saber, mas uma competência sobrenatural, uma graça (cf. Adenda).

No antigo Missal dominicano, a missa da Vigília da Epifania é pautada pela graça da pregação:

Oração – Ilumina, Senhor, os corações dos teus fieis com a graça do Espírito Santo; dá-lhes uma palavra de fogo; aumenta a virtude àqueles que pregam a tua Palavra. Por Nosso ....

Colecta – Dá, Senhor, aos teus servidores uma palavra graciosa. Ao santificar estas ofertas, visita os seus corações. Por Nosso...

Depois da comunhão – Ilumina, Senhor, o teu povo. Acende o seu coração com o esplendor da Tua graça para que descubra sem cessar o Salvador e o abrace na verdade. Por....

 

Reparemos na Bênção dominicana (séc. XIII): Que Deus Pai nos abençoe, que Deus Filho nos cure, que o Espírito Santo nos ilumine, e nos dê olhos para ver, mãos para realizar o trabalho de Deus, pés para caminhar, uma boca para pregar a Palavra da salvação e o Anjo da paz para os guardar e, finalmente pela graça do Senhor nos conduza ao Reino.

 

Humberto de Romans (1200-1277), o 5º Mestre Geral da Ordem dos Pregadores, escreveu: "Neste mundo, Cristo celebrou apenas uma missa, no dia da Ceia. Não se consegue ler, em lado nenhum, que tenha ouvido confissões. Pouco e raramente distribuiu sacramentos. Não gastou muito tempo com as horas canónicas. O mesmo se diga de outras actividades, salvo a oração e a pregação. Mas pode ler-se: logo que começou a tarefa da pregação, entregou-lhe a vida toda, mais ainda do que à oração".

Guy Bedouelle publicou um livro cujo título – Dominique ou la grace de la Parole – indica o conteúdo e personaliza, na própria pessoa de S. Domingos, o carisma essencial dos Dominicanos.

Simon Tugwel na sua originalíssima obra The was of the praecher retomou esta perspectiva: o carisma dos Dominicanos é a actividade da pregação e a pregação não esvazia, mas é uma fonte de contemplação, se for o fruto de uma graça, não de habilidade, não de uma retórica.

As instituições fundamentais da Ordem dos Pregadores – oração, estudo, vida comunitária, regime democrático – existem para acolher uma graça: a graça da pregação. Os antigos Capítulos Gerais da Ordem eram celebrados sempre no Pentecostes. S. Tomás de Aquino é também o teólogo da graça do Espírito Santo, que como ele mostra é o que há de mais poderoso na Lei Nova, Lei do amor e da liberdade, Lei do Evangelho que não destrói a natureza nem dispensa o estudo, a investigação científica nem os recursos humanos da comunicação, segundo a cultura de cada povo e de cada época.

 

Resumindo: Em S. Domingos coexistem uma variedade enorme de apostolados e de modos de vida: a do estudante da Universidade de Palência, para quem "estudar em peles mortas quando seres humanos morrem de fome... Vende os livros; a do claustro de Osma, onde foi cônego regrante sob a Regra de Santo Agostinho; o membro do grupinho itinerante das missões rurais; o fundador dos conventos citadinos e universitários; o sonho nunca realizado por ele, das missões longínquas. Aquilo que Domingos sonhou, mas não pôde realizar, tornou-se a vocação dos Irmãos Pregadores, através dos séculos.

"S. Domingos nada rejeita da tradição espiritual da Igreja una e santa, ou melhor, nada daquilo que é compatível com a sua intuição de uma Ordem ao serviço da pregação. Não tem nenhuma preocupação em ser original. Situa-se na experiência da sabedoria dos Padres do Deserto, no ideal de uma só alma e um só coração da Regra de santo agostinho, nas austeridades de Grandmont ou da vida monástica que ele pode conhecer e apreciar nos seus amigos cistercienses. Eis o seu gênio: fez a síntese dos diversos elementos numa obra original, pelo seu equilíbrio, tanto mais notável na sua construção quanto necessariamente precário na realização sempre a rectificar"[12].

Para responder ao desafio do título desta conferência, não encontrei nada mais apropriado do que transcrever uma passagem das Constituições dos Irmãos Pregadores, na edição de 1954, nº 827:

"Dado que o estudo da Verdade sagrada é meio necessário, indispensável, para atingir o fim específico da Ordem, os nossos Irmãos, a exemplo e mandato de S. Domingos, de tal forma o procurem que de dia, de noite, em casa, em viagem, leiam sempre alguma coisa ou meditem e esforcem-se por reter e recordar aquilo que no estudo ou na meditação forem bebendo. Devemos entregar-nos ao estudo por amor a Deus e ao próximo, procurando não os nossos interesses, glória ou lucro, mas os interesses de Jesus Cristo".

Uma componente essencial do tema desta conferência – que não vou ter tempo de explicitar – é o estilo de oração de S. Domingos em que o corpo está impregnado da misericórdia de Deus pelo mundo. É uma oração de viagens, é uma oração com os seus irmãos, é uma oração pela noite dentro, em plena solidão, mas povoada pela presença da misericórdia de Deus pela salvação do mundo[13].

E nada disse da geografia dos conventos dominicanos. Por vontade de S. Domingos deviam ser casas modestas, situadas nas cidades. Era aí que o novo mundo estava a nascer. Era a esse mundo que era preciso pregar. Era esse mundo que era preciso salvar.

[9] Cit. por P. Regamey, Un Ordre ancien dans un monde actuel – Les Dominicains, Cerf, Paris, 1957, p. 96

[10] cf. Oeuvres Spirituelles, Sources Chrétiennes, Cerf, Paris, 1955, p.87

[11] O Espírito de S. Domingos e a sua intenção na fundação da Ordem dos Pregadores, policopiado, p. 43

[12] Guy Bédouelle, Domonique ou la Grace de la Parole,  Fayard-Mame, Paris, 1982, p. 234

[13] cf. Ibidem, pp.238-246.

R. João de Freitas Branco, 12, 1500-359 Lisboa  | Email: igrejadominicanoslisboa@gmail.com

  • Convento de São Domingos de Lisboa
  • Igreja do Convento de São Domingos - Dominicanos