DIFICULDADES

Na reforma do séc. XV-XVI, debate-se a seguinte questão: o próprio êxito da iniciativa de S. Domingos na Igreja põe em causa a originalidade do carisma dominicano. Nessa altura, já todas as Ordens religiosas pregam e estudam. O que começa a diferenciá-las é a pregação ou a propaganda das devoções apropriadas por cada um dos Institutos. A astúcia dos Dominicanos consistiu em se tornarem os pregadores da devoção do Rosário e não só. Foi Nossa Senhora que o entregou a S. Domingos e o encarregou de pregar os seus mistérios. É evidente que, em termos de pregação popular, isto era um achado: o pão partido aos pequeninos, segundo o pedido de Cristo. Há mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, com uma grande lacuna: onde estão os mistérios da vida pública de Jesus e, especialmente, do ministério da sua pregação, que os Dominicanos deviam servir? Nada é perfeito, mas foi um grande achado.

 

Durante muito tempo, vão desenvolver-se tensões entre doutores e pregadores, entre pregação e ensino. Os Dominicanos são filhos de S. Domingos ou de S. Tomás de Aquino?

 

Outra tensão nunca superada de forma convincente: é uma Ordem contemplativa ou uma Ordem activa? Primado da contemplação ou primado da intervenção? S. Domingos chamou às monjas de Prouille, A Santa Pregação. S. Tomás de Aquino, que manteve o primado teórico da vida contemplativa, soube levar a água ao moinho dos Pregadores: "embora a vida contemplativa seja superior à vida dedicada a actividades corporais, no entanto, quando a vida activa é dedicada a pregar e a ensinar, aos outros, a realidade contemplada, este estilo de vida é mais perfeito do que a vida contemplativa. Aliás, este estilo de vida activa pressupõe abundante contemplação. Foi a vida que Jesus escolheu"[8].

 

Nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, a tensão entre pregação e observâncias monásticas enfrentaram dois grandes restauradores da Ordem em França: Lacordaire e Jandel. No pós Vaticano II, renasceu, embora sem futuro, uma tentativa de Moines Apostoliques.

Estas tensões são inevitáveis numa Ordem que para realizar integralmente o seu carisma tem de se manter fiel a aspectos complementares, mas que, na prática, não são de gestão fácil porque se apresentam, muitas vezes, como um dificultando o outro, quando existem para se ajudarem.

[8] Summa Theologiae, III, q. 40, a.1, ad 2; cf. II-II, q. 182, a. 1; q. 188, a. 6

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